Região perde eleitores, envelhece e revela um mapa de abstenção que pode mudar estratégias eleitorais

Estudo aponta eleitorado menor e mais envelhecido no Vale do Aço soaquinoticias
  • AAPI - CAMPANHA - GERAÇÕES

Estudo com dados oficiais do TSE mostra redução de 8,7 mil eleitores em quatro anos, crescimento da participação dos eleitores com 45 anos ou mais e forte concentração das abstenções entre adultos jovens e pessoas de baixa escolaridade.

O eleitorado do Vale do Aço e Entorno está mudando — e as transformações podem ter impacto direto na forma como campanhas eleitorais deverão disputar votos na região.
Um estudo elaborado pela Polijetro em parceria com a Tabulare, com base em dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), analisou o perfil eleitoral de 38 municípios mineiros e identificou três movimentos principais: o eleitorado está menor, mais envelhecido e distribuído de forma desigual entre os municípios.
O levantamento mostra que o território passou de 658.212 eleitores aptos em 2022 para 649.549 em julho de 2026. São 8.663 eleitores a menos, uma redução de 1,3%. A queda, porém, não ocorreu de maneira uniforme.

As faixas entre 18 e 44 anos perderam participação, enquanto todas as faixas a partir dos 45 anos cresceram. Hoje, os eleitores com 45 anos ou mais representam 53% do eleitorado, contra 49,1% em 2022.
Os grandes municípios encolhem, enquanto alguns municípios menores avançam
A mudança também aparece no mapa eleitoral.

Entre os maiores colégios, Caratinga teve a maior redução, com 4.683 eleitores a menos, queda de 7,2%. Ipatinga perdeu 3.343 eleitores e Coronel Fabriciano, 1.789. Timóteo permaneceu praticamente estável, com redução de apenas 65 eleitores.
Na outra ponta, Santana do Paraíso ganhou 2.051 eleitores, crescimento de 8,6%. Belo Oriente acrescentou 905 eleitores, enquanto São Domingos das Dores e Córrego Novo também registraram crescimento.

O resultado é uma redistribuição gradual do eleitorado dentro do território. Os grandes centros apresentam perda ou estabilidade, enquanto alguns municípios menores e áreas da periferia metropolitana registram crescimento.
Mais de 160 mil eleitores não foram às urnas
Se o tamanho do eleitorado chama atenção, o comportamento eleitoral revela outro dado importante.

No primeiro turno das eleições de 2022, o Vale do Aço e Entorno registrou 24,4% de abstenção, o equivalente a aproximadamente 160,5 mil eleitores que não compareceram às urnas.

No segundo turno, a taxa caiu para 23%. Foram cerca de 9 mil abstenções a menos em relação ao primeiro turno, redução registrada em praticamente todas as faixas etárias e níveis de escolaridade.
O número mostra que a ausência eleitoral não é distribuída de maneira uniforme. Há grupos com taxas muito superiores à média e, portanto, com comportamento bastante diferente diante das urnas.

Adultos jovens concentram metade das ausências
Um dos principais achados do estudo está justamente entre os eleitores adultos.
As faixas de 18 a 44 anos concentraram 81.342 ausências no primeiro turno de 2022, aproximadamente metade de toda a abstenção registrada no território.
Os maiores índices aparecem entre os eleitores mais jovens em idade de voto obrigatório. A abstenção chegou a 28,7% entre 25 e 29 anos, 28,1% entre 21 e 24 anos e 26,6% entre 30 e 34 anos.

O fenômeno cria um contraste interessante: justamente enquanto a participação relativa desses grupos diminui no cadastro eleitoral de 2026, eles continuam representando um dos maiores contingentes de eleitores que deixam de comparecer.
Escolaridade é um dos principais divisores
A diferença de comportamento eleitoral fica ainda mais evidente quando o eleitorado é analisado pela escolaridade.

Entre os eleitores analfabetos, a taxa de abstenção chegou a 58,9% no primeiro turno de 2022. Entre aqueles que possuem ensino superior completo, foi de apenas 12,9%.
Uma diferença de 46 pontos percentuais separa os dois grupos.
O levantamento também mostra que os eleitores de menor escolaridade responderam por 81.586 ausências, ou 50,8% de toda a abstenção registrada.
Ao mesmo tempo, o perfil educacional do eleitorado está mudando. Entre 2022 e 2026, aumentou a participação de pessoas com ensino médio completo e ensino superior completo. Ainda assim, 37,7% do eleitorado — aproximadamente 244,8 mil pessoas — permanece nos níveis mais baixos de escolaridade.

Mulheres são maioria e comparecem mais
As mulheres também representam a maioria do eleitorado.
No cadastro de 2026, elas correspondem a 52,5% dos eleitores, percentual ligeiramente superior ao registrado em 2022.

Nos dados de comparecimento das eleições de 2022, as mulheres também apresentaram menor taxa de abstenção. No primeiro turno, foram 23,4%, contra 25,5% entre os homens. No segundo turno, os índices foram de 22,2% e 23,9%, respectivamente.
O eleitorado com 70 anos ou mais é um capítulo à parte
O envelhecimento do eleitorado ganha ainda mais importância quando se observa o voto facultativo.

Jovens de 16 e 17 anos e eleitores com 70 anos ou mais representam, juntos, 13,9% do eleitorado em 2026 — aproximadamente um em cada sete eleitores.
Esse grupo passou de 80.378 eleitores em 2022 para 90.389 em 2026, crescimento de 10.011 pessoas. A maior parte do avanço veio dos eleitores com 70 anos ou mais, que passaram de aproximadamente 74,1 mil para 83,9 mil.
Mas há uma diferença importante entre os dois extremos.
Entre os jovens de 16 e 17 anos, a abstenção no primeiro turno foi de 16,7% aos 16 anos e 17,6% aos 17 anos.

Entre os eleitores com 70 anos ou mais, a situação é inversa. A abstenção chega a 36,3% entre 70 e 74 anos, 56,7% entre 75 e 79 anos e 71,8% entre 80 e 84 anos, ultrapassando 90% nas faixas etárias mais avançadas.
Ipatinga, Fabriciano, Caratinga e Timóteo concentram a maior parte das ausências
Embora os municípios menores apresentem as maiores taxas proporcionais de abstenção, os quatro maiores colégios eleitorais concentram o maior volume absoluto de eleitores ausentes.

Ipatinga, Coronel Fabriciano, Caratinga e Timóteo somaram aproximadamente 90,5 mil ausências, cerca de 56% de todas as faltas registradas no território no primeiro turno de 2022.

Quando o recorte é apenas o eleitorado com 70 anos ou mais, esses quatro municípios também concentram 57% das ausências.
O estudo, portanto, aponta dois problemas diferentes: nos grandes municípios, o desafio está principalmente na escala da mobilização; nos municípios menores, nas taxas elevadas e na necessidade de maior capilaridade territorial.

Um eleitorado, diferentes estratégias
Os números indicam que não existe um único comportamento eleitoral no Vale do Aço.
O eleitorado acima de 45 anos, que já representa mais da metade do cadastro, possui comportamento diferente do adulto jovem. O eleitor de menor escolaridade apresenta taxas de abstenção muito superiores às daqueles com maior escolaridade. Os grandes municípios concentram volume, enquanto os pequenos apresentam taxas mais elevadas.
O próprio estudo resume seis grandes implicações para campanhas: atenção especial ao eleitorado 45+, mobilização dos adultos jovens, utilização da escolaridade como indicador de mobilização, tratamento diferenciado entre jovens e idosos do voto facultativo, separação entre estratégias de escala e estratégias territoriais e atenção à capacidade de mobilização demonstrada entre o primeiro e o segundo turno.
O dado que talvez seja mais importante: parte dos ausentes pode ser mobilizada
A redução de aproximadamente 9 mil abstenções entre o primeiro e o segundo turno de 2022 é um dos elementos que mais chamam atenção no levantamento.
O comportamento sugere que uma parcela dos eleitores que não compareceu inicialmente pode retornar às urnas quando a disputa se torna mais intensa ou quando é submetida a maior esforço de mobilização.

Isso não significa que todos os ausentes sejam automaticamente votos disponíveis para uma candidatura. O dado mostra, entretanto, que abstenção não é necessariamente um comportamento permanente.
O estudo conclui que esse contingente de eleitores ausentes, combinado às diferenças de idade, escolaridade e território, representa um espaço relevante para ações de mobilização eleitoral.

O novo mapa eleitoral do Vale do Aço
O retrato produzido pelo estudo é, portanto, diferente de uma simples contagem de eleitores.

O Vale do Aço chega a 2026 com menos eleitores do que tinha em 2022, mas com maior peso relativo dos eleitores maduros. Ao mesmo tempo, cresce a escolaridade média, embora uma parcela expressiva ainda esteja concentrada nos níveis mais baixos.
O território também passa por uma redistribuição: grandes cidades perdem eleitores ou permanecem estáveis, enquanto municípios como Santana do Paraíso avançam.
E, por trás dos números, existe um enorme contingente de eleitores que não se transforma em comparecimento: 160,5 mil ausências no primeiro turno de 2022.
O cenário desenhado pelos dados do TSE sugere que a disputa eleitoral no Vale do Aço não poderá ser tratada como uma operação homogênea. Idade, escolaridade, município e capacidade de mobilização produzem comportamentos diferentes — e, consequentemente, exigem estratégias diferentes.

Mais do que saber onde estão os eleitores, o desafio passa a ser compreender quem comparece, quem não comparece e o que diferencia esses grupos.
É nessa diferença entre o eleitor cadastrado e o eleitor efetivamente mobilizado que o estudo identifica uma das principais questões estratégicas para as próximas disputas eleitorais.

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