Renda, carreira, saúde mental e desigualdades estão diretamente ligados às atividades de cuidar de crianças, idosos, pessoas com deficiência e da própria casa
Cuidar de crianças, preparar refeições, limpar a casa, acompanhar uma pessoa idosa ao médico ou auxiliar alguém com deficiência são atividades presentes diariamente na vida de milhões de brasileiros. Embora sejam fundamentais para o funcionamento das famílias e da sociedade, muitas dessas tarefas não são remuneradas e acabam sendo pouco reconhecidas como trabalho.
Esse conjunto de atividades é chamado de economia do cuidado. O conceito abrange tanto o cuidado realizado dentro das famílias quanto os serviços prestados por profissionais, instituições públicas e empresas. No Brasil, a discussão ganhou espaço nos últimos anos e passou a integrar oficialmente as políticas públicas.
A Lei nº 15.069, de 2024, instituiu a Política Nacional de Cuidados e reconheceu o cuidado como um direito, incluindo o direito de ser cuidado, de cuidar e ao autocuidado. A legislação também estabeleceu como objetivos reduzir e redistribuir o trabalho não remunerado, que é realizado principalmente por mulheres, além de promover a corresponsabilidade entre homens e mulheres e entre famílias, Estado, setor privado e sociedade.
Quando cuidar interfere na renda
A divisão das responsabilidades de cuidado pode influenciar diretamente a participação das pessoas no mercado de trabalho. Dados reunidos pelo IBGE mostram que, no primeiro trimestre de 2025, a taxa de participação das mulheres na força de trabalho era de 52,7%, enquanto entre os homens chegava a 72,3%.
Segundo o instituto, cerca de um terço das mulheres que estão fora do mercado de trabalho aponta responsabilidades relacionadas aos cuidados como motivo. Para o IBGE, a ampliação da oferta de serviços de cuidado pode contribuir para aumentar a participação feminina no mercado de trabalho.
O impacto também aparece na carreira. Quando uma pessoa precisa reduzir a jornada, recusar oportunidades profissionais ou deixar o emprego para assumir responsabilidades familiares, o cuidado deixa de ser apenas uma questão doméstica e passa a ter consequências econômicas.
Essa realidade pode atingir especialmente famílias que não têm condições de contratar serviços particulares. Nesses casos, creches, escolas em período adequado, serviços de atendimento domiciliar e equipamentos públicos para idosos e pessoas com deficiência podem fazer diferença na organização da rotina.
O impacto sobre a saúde mental
A sobrecarga de cuidados também pode afetar o bem-estar de quem cuida. A combinação entre trabalho remunerado, tarefas domésticas e responsabilidade permanente por outra pessoa pode reduzir o tempo disponível para descanso, lazer, convivência social e autocuidado.
A Política Nacional de Cuidados reconhece essa dimensão ao estabelecer que o direito ao cuidado inclui também o autocuidado. A legislação prevê ainda medidas para reduzir a sobrecarga que recai sobre as famílias e, especialmente, sobre as mulheres.
Isso significa que discutir economia do cuidado não envolve apenas dinheiro. A questão também está relacionada à distribuição do tempo, à autonomia e às condições para que as pessoas possam estudar, trabalhar, descansar e participar da vida social.
Por que o cuidado é uma questão econômica
Mesmo quando não existe salário, o trabalho de cuidado produz valor social e econômico. Uma criança precisa de cuidados para crescer; uma pessoa doente precisa de acompanhamento; idosos podem necessitar de auxílio para atividades cotidianas. Sem esse trabalho, outras atividades econômicas também seriam afetadas.
O próprio governo federal define o cuidado como o trabalho cotidiano necessário para garantir o bem-estar das pessoas e a reprodução da vida, da força de trabalho, da sociedade e da economia.
Por isso, o debate envolve também os trabalhadores que recebem remuneração para cuidar, como profissionais da saúde, cuidadores de idosos, trabalhadores domésticos e outras categorias. A Política Nacional de Cuidados estabelece entre seus objetivos a promoção do trabalho decente e o enfrentamento da precarização dessas atividades.
Mulheres ainda concentram grande parte do trabalho
Apesar das mudanças na organização das famílias e no mercado de trabalho, as mulheres continuam responsáveis por uma parcela maior do cuidado não remunerado. O IBGE aponta que elas permanecem respondendo pela maior parte do cuidado oferecido pelas famílias, enquanto a oferta de serviços públicos ainda é insuficiente e desigual em diferentes regiões.
Essa divisão também se relaciona a outras desigualdades, como renda, raça, território, idade e deficiência. A própria Política Nacional de Cuidados determina que essas diferenças sejam consideradas na elaboração das ações públicas.
O que pode mudar com políticas públicas
A Política Nacional de Cuidados prevê ações integradas em áreas como saúde, assistência social, educação, trabalho e renda, previdência, mobilidade e direitos humanos. Entre as medidas previstas estão a ampliação e integração de serviços de cuidado, apoio às pessoas que cuidam sem remuneração e iniciativas para conciliar trabalho e responsabilidades familiares.
O Plano Nacional de Cuidados, regulamentado em 2025, é o instrumento destinado a transformar essas diretrizes em ações, metas e mecanismos de implementação. O plano prevê medidas voltadas tanto para quem precisa de cuidados quanto para quem exerce essa atividade.
A proposta também envolve uma mudança na forma como a sociedade enxerga o cuidado. Em vez de tratá-lo apenas como uma responsabilidade privada das famílias, a política estabelece uma lógica de corresponsabilidade entre Estado, famílias, empresas e sociedade civil.
Um trabalho que precisa ser contabilizado
A economia do cuidado coloca em evidência uma atividade que durante muito tempo ficou restrita ao espaço doméstico e pouco apareceu nas discussões econômicas. Ao medir o tempo dedicado ao cuidado e discutir quem assume essa responsabilidade, torna-se possível compreender melhor seus efeitos sobre emprego, renda, desigualdade e qualidade de vida.
Mais do que uma questão relacionada às mulheres ou às famílias, o cuidado está presente em todas as etapas da vida. Crianças precisam de atenção, adultos podem necessitar de apoio em determinados períodos e o envelhecimento da população tende a aumentar a demanda por serviços especializados.
O desafio, portanto, é construir uma organização social em que cuidar não signifique necessariamente abrir mão da renda, da carreira, da saúde ou do tempo pessoal. No Brasil, essa discussão já ganhou espaço na legislação e começa a ser estruturada como uma política pública permanente.












